Psicologia clínica

Quem vive o sofrimento também precisa participar das decisões sobre o cuidado

No Dia Mundial da Saúde Mental, uma reflexão sobre como a experiência do paciente pode orientar o cuidado por meio da decisão compartilhada.

O que fica depois da consulta

A pessoa entendeu as opções? Conseguiu falar do que mais a preocupa? O plano cabe na rotina que ela tem? Existe espaço para dizer que alguma etapa está difícil?

Uma consulta pode terminar com orientações claras e, ainda assim, deixar essas perguntas sem resposta. Elas tornam a escuta algo observável. Ouvir é conhecer uma experiência. Escutar, no sentido clínico, é permitir que ela influencie o cuidado.

Neste 10 de outubro, Dia Mundial da Saúde Mental, a Comportalmente propõe olhar para esse ponto da prática: como o paciente participa das decisões sobre o próprio tratamento.

A experiência vivida no tema de 2026

Em 2026, a campanha da Organização Mundial da Saúde para o Dia Mundial da Saúde Mental tem como tema Lived experiences heard: real voices, real change. A proposta reconhece o conhecimento de quem vive condições de saúde mental como uma forma de expertise e defende que essas vozes orientem políticas, serviços e decisões que afetam suas vidas.

O chamado vai além de colher depoimentos. Envolve considerar esse conhecimento ao planejar, executar e avaliar o cuidado. Na escala do consultório, isso tem nome conhecido: tomada de decisão compartilhada.

Da escuta à decisão compartilhada

Na decisão compartilhada, o profissional traz o conhecimento técnico: diagnóstico, opções, riscos e evidências. O paciente traz o que só ele sabe: valores, prioridades, rotina e o que já tentou antes. O plano terapêutico surge do encontro entre os dois.

Na psicologia e na psiquiatria, esse encontro sustenta a aliança terapêutica. Uma formulação de caso construída com o paciente, e não apenas apresentada a ele, tende a fazer mais sentido para quem precisa colocá-la em prática. A autonomia do paciente, prevista no Código de Ética Profissional do Psicólogo, deixa de ser um princípio abstrato e passa a orientar escolhas concretas da sessão.

O mesmo vale para o médico de qualquer especialidade. Para o profissional, uma mudança pode parecer central. Para o paciente, uma dificuldade cotidiana pode estar impedindo até a continuidade do acompanhamento. Conhecer essa diferença muda a conversa sobre o plano.

Quando a falta não é resistência

Pense em uma situação ilustrativa. Um paciente começa a faltar às sessões e deixa de fazer os registros combinados entre os encontros. A leitura imediata pode ser baixa motivação ou resistência ao processo.

Uma conversa aberta pode revelar outra coisa: uma mudança de turno no trabalho, um filho pequeno em casa, registros que exigem um tempo que ele não tem. Nesse caso, ajustar o horário, simplificar a tarefa ou redefinir a prioridade da etapa não é concessão. É parte do manejo clínico.

Nem toda demanda poderá ser atendida. Mas, quando é escutada, ela passa a integrar a decisão, e a dificuldade deixa de ser interpretada automaticamente como falta de compromisso.

Participar não é decidir sozinho

Ter voz não significa dominar termos técnicos nem escolher sem orientação. O profissional continua responsável por explicar possibilidades, avaliar riscos e oferecer recomendações fundamentadas. Decisão compartilhada não transfere ao paciente a responsabilidade clínica.

O espaço de participação se fortalece quando a pessoa pode perguntar, discordar e relatar dificuldades sem receio de ser julgada por isso. Também vale lembrar que uma história não representa todas as experiências: cada paciente traz necessidades e contextos próprios.

Uma pergunta para a próxima revisão do plano

Para a Comportalmente, formar clínicos passa também por formar essa escuta: a que reconhece a experiência do paciente e a converte em decisão clínica.

Neste Dia Mundial da Saúde Mental, uma pergunta simples pode orientar a próxima revisão de plano terapêutico: o que, neste plano, foi definido a partir do que o paciente trouxe?

Referências

  1. Organização Mundial da Saúde. World Mental Health Day 2026: Lived experiences heard: real voices, real change. who.int

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