Parte de uma fala clínica recorrente para discutir o que ela revela sobre a percepção do paciente e o que isso implica para os objetivos do trabalho.
A frase aparece com frequência em avaliações e nos primeiros encontros clínicos. O paciente descreve uma dificuldade e, ao mesmo tempo, sinaliza que aquilo não é novidade: sempre foi assim, é jeito dele, faz parte da personalidade.
A afirmação não é necessariamente resistência. Pode ser uma descrição honesta do que foi vivido. Para o profissional, ela convida a investigar mais do que a corrigir.
Dar contorno ao que parece definitivo
Em entrevista ao podcast Speaking of Psychology, da American Psychological Association, a psicóloga Carla Sharp discute a avaliação e o tratamento do transtorno de personalidade borderline. Parte da conversa envolve como pacientes e familiares constroem a percepção do que é "o jeito de ser" da pessoa e como isso afeta a formulação do caso.
Na investigação clínica, uma frase como "eu sempre fui assim" merece ser desdobrada. Desde quando é assim? Em todas as situações? O que muda quando o contexto muda? Há momentos em que o padrão não aparece?
Perguntar sobre exceções não invalida a percepção do paciente: ajuda a construir uma hipótese mais precisa sobre o que se mantém e o que é mais sensível ao contexto.
Traduzir mudança em objetivos possíveis de acompanhar
Quando o paciente acredita que "é sempre assim", objetivos clínicos abstratos, como "mudar a personalidade", podem parecer impossíveis. Uma forma de trabalhar com isso é identificar situações específicas em que o padrão aparece e definir o que seria diferente naquelas situações.
Isso não é minimizar o impacto de traços estáveis. É encontrar um nível de descrição em que a mudança possa ser observada e acompanhada ao longo do processo.
Referências
- American Psychological Association. What is borderline personality disorder? with Carla Sharp. Speaking of Psychology. apa.org


