Posiciona a queixa de desatenção no cruzamento entre o contexto de trabalho contemporâneo e a avaliação neuropsicológica, convidando a uma investigação mais completa.
O paciente relata dificuldade para se concentrar. Começa uma tarefa e logo está em outra. Tem a sensação de que a cabeça não para. A queixa é frequente, reconhecível, e merece investigação cuidadosa.
Para o profissional, a investigação inclui o ambiente. Em um contexto de trabalho com notificações frequentes, múltiplas demandas simultâneas e poucos períodos de foco contínuo, a dificuldade de concentração pode ter mais de uma origem.
O que os estudos sobre telas permitem perguntar
Em entrevista ao podcast Speaking of Psychology, da American Psychological Association, a pesquisadora Gloria Mark discute como a fragmentação da atenção se relaciona com o uso de tecnologias digitais e a cultura de multitarefa. Seu trabalho indica que o ambiente de trabalho contemporâneo impõe exigências que afetam a capacidade de foco mesmo em pessoas sem qualquer condição neurológica.
Esse ponto não explica toda queixa de desatenção. Mas convida a uma pergunta importante na avaliação: como é o ambiente de trabalho e de estudo do paciente? Quantas interrupções acontecem em uma hora típica? Há momentos em que o foco se mantém por períodos mais longos?
Descrever a dificuldade com mais precisão
A queixa de desatenção é um ponto de entrada, não um diagnóstico. Na avaliação neuropsicológica, importa descrever as condições em que a dificuldade aparece com mais força, as que parecem reduzir o impacto e como isso se compara ao funcionamento anterior.
Também vale investigar outras variáveis. Sono, carga cognitiva, nível de engajamento com as tarefas e presença de sintomas afetivos são fatores que interagem com a atenção e precisam ser considerados antes de qualquer hipótese diagnóstica.
Referências
- American Psychological Association. Why our attention spans are shrinking, with Gloria Mark. Speaking of Psychology. apa.org


