Introduz um tema de pesquisa relevante para a prática clínica e a interlocução interdisciplinar, convidando à reflexão profissional sobre o impacto do gênero na avaliação.
A paciente relata uma queixa física. Em algum momento da trajetória, a hipótese de que o problema seja "emocional" ou "psicossomático" aparece antes de uma investigação clínica completa. Isso acontece com mais frequência com mulheres do que com homens.
Para o profissional de saúde mental, esse cenário aparece de duas formas: como dado de história clínica que o paciente traz, ou como parte do contexto de encaminhamento recebido.
Um dado que merece reflexão profissional
Um estudo publicado no periódico PNAS investigou o viés de gênero nas decisões de manejo da dor em contexto clínico experimental. Os resultados indicaram que a dor das mulheres tende a ser percebida como menos intensa e mais atribuída a fatores emocionais do que a dor de homens com descrições equivalentes.
Esse dado não é generalização automática para toda situação clínica. É um ponto de partida para uma pergunta: estamos aplicando os mesmos critérios de investigação independentemente do gênero do paciente?
Uma explicação precisa ser sustentada
Para o psicólogo que recebe um encaminhamento, saber que a queixa física foi investigada adequadamente antes de concluir que há um componente emocional predominante é parte da interlocução interdisciplinar responsável.
Isso não significa desconfiar do médico que fez o encaminhamento. Significa fazer as perguntas que garantem que a avaliação psicológica se apoie em um contexto clínico informado: quais hipóteses orgânicas já foram investigadas? O que os exames mostraram? A conclusão de que é emocional é por exclusão ou por evidência?
Referências
- Samulowitz, A. et al. (2024). Sex bias in pain management decisions. PNAS.doi.org/10.1073/pnas.2401331121


